Tag: Beto Sicupira

  • Compra da Skechers pela 3G Capital vira disputa nos EUA


    A disputa bilionária pela compra da Skechers pela 3G Capital e o impacto no mercado global de calçados

    A aquisição da Skechers pela 3G Capital, avaliada em US$ 9,4 bilhões, tornou-se um dos temas corporativos mais sensíveis do mercado norte-americano em 2025. O negócio, anunciado como uma das maiores transações globais no setor de artigos esportivos e calçados, passou a ser alvo de uma batalha judicial conduzida por grupos de investidores que alegam subavaliação da empresa no momento da compra.

    A 3G Capital — comandada pelos bilionários brasileiros Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e Beto Sicupira — adquiriu a Skechers por US$ 63 por ação. O valor, apresentado inicialmente como um prêmio relevante sobre o preço de mercado, passou a ser contestado por fundos norte-americanos que afirmam que a companhia valia substancialmente mais do que o proposto. O caso ganhou atenção no Tribunal de Chancelaria de Delaware, tradicionalmente responsável por arbitrar disputas societárias de grande porte nos EUA.

    A controvérsia surgiu em meio ao cenário de instabilidade provocado pelo tarifaço imposto pelo governo Donald Trump, situação que impactou o setor de varejo, exportações e cadeias de suprimentos. A Skechers foi uma das empresas que mais sentiram o impacto no curto prazo. No entanto, investidores contestam a premissa de que a desvalorização momentânea justificaría o preço pago pela 3G Capital, levantando dúvidas sobre possíveis favorecimentos internos e sobre o momento estratégico da aquisição.

    Por que a compra da Skechers pela 3G Capital virou caso judicial

    A principal acusação feita pelos investidores é a de subavaliação. Para eles, o valor de US$ 63 por ação não expressaria o real potencial de crescimento da Skechers, especialmente diante da recuperação esperada após o impacto das tarifas norte-americanas. Fundos alegam que a negociação teria favorecido Robert Greenberg, fundador da empresa, que permaneceu próximo às negociações e supostamente teria se beneficiado do acordo fechado com a 3G.

    Outro aspecto central da disputa envolve o timing. Em abril, antes da compra, as ações da Skechers recuaram mais de 20% após a empresa retirar sua projeção de resultados, citando incertezas provocadas pelas tarifas impostas pelos EUA. Para os acionistas, a queda teria criado uma distorção temporária, permitindo à 3G adquirir a empresa por um preço inferior ao que valeria em condições normais de mercado.

    Um mês depois, em maio, a gestora brasileira fechou o acordo oferecendo um prêmio de cerca de 30% sobre o preço anterior ao anúncio das taxações. Mesmo assim, fundos acionaram a Justiça defendendo que o valor não refletia a dimensão global da Skechers nem sua posição consolidada como a terceira maior fabricante de calçados do planeta.

    Tribunal de Chancelaria de Delaware assume protagonismo

    Ao menos cinco ações judiciais foram protocoladas desde setembro, todas contestando valores e condições da operação. O Tribunal de Chancelaria de Delaware — um dos mais influentes do mundo em disputas empresariais — assumiu a condução dos processos. O tribunal é conhecido por julgamentos detalhados sobre governança corporativa, conflitos de interesse e obrigações fiduciárias.

    Para analistas jurídicos internacionais, o caso abre um precedente relevante. Empresas multinacionais adquiridas em momentos de volatilidade de mercado podem ser obrigadas a justificar, com mais transparência, premissas de avaliação, projeções financeiras, eventuais conflitos internos e impactos conjunturais que influenciam o preço final.

    O aumento do escrutínio sobre operações bilionárias indica que a governança será um fator determinante nas grandes transações globais nos próximos anos.

    Quem é a Skechers e por que ela vale tanto

    Fundada na Califórnia, a Skechers cresceu rapidamente até se tornar a terceira maior marca de calçados do mundo, atrás apenas de Nike e Adidas. A empresa conta com mais de 5,3 mil lojas globais, incluindo 15 no Brasil, e registrou faturamento acima de US$ 9 bilhões no último ano.

    A marca é reconhecida pela estratégia que combina conforto, tecnologia e preços competitivos, atendendo um público variado composto por consumidores casuais, atletas amadores e segmentos corporativos. Seu portfólio inclui tênis esportivos, calçados de caminhada, sandálias e acessórios de performance.

    Mais de 60% das vendas da Skechers ocorrem fora dos EUA, o que reforça seu peso estratégico em mercados externos. A diversificação geográfica ajuda a explicar o interesse da 3G Capital pela empresa, já que a marca possui forte presença na Ásia, Europa e América Latina — regiões que continuam expandindo o consumo de artigos esportivos.

    Por que a Skechers atraiu a 3G Capital

    A 3G Capital tem histórico consolidado em operações de grande porte, frequentemente voltadas para empresas de consumo massivo. O grupo é conhecido por aquisições como:

    A compra da Skechers segue a lógica do portfólio da 3G: marcas globais com forte presença internacional e potencial de ganho de eficiência operacional.

    Especialistas apontam alguns fatores estratégicos que explicam o interesse:

    1. Mercado global de calçados em expansão
      Segmento cresce acima da média global do varejo e movimenta centenas de bilhões de dólares anualmente.

    2. Potencial de escala
      A Skechers tem forte capacidade logística e uma rede global consolidada.

    3. Possibilidade de aumento de margens
      Eficiência operacional — principal marca registrada da 3G — poderia elevar lucros.

    4. Marca resiliente
      Mesmo em cenários de crise, a empresa mantém vendas elevadas devido a produtos de entrada e preços competitivos.

    O tarifaço de Trump e a volatilidade do mercado

    A política tarifária do governo Donald Trump afetou diretamente o desempenho da Skechers no curto prazo. Ao retirar sua projeção de resultados e alertar sobre impactos no custo de produção e importações, a empresa viu seus papéis despencarem mais de 20% em abril.

    Para investidores que hoje contestam o valor da venda, esse momento de fragilidade teria sido usado como ponto de partida para uma avaliação artificialmente baixa da empresa. Eles defendem que, sem o tarifaço, as ações valeriam substancialmente mais.

    Esse argumento reforça a tese de que o valor pago não refletiu o potencial real da companhia.

    Por que investidores querem um preço maior

    Os reclamantes sustentam que a 3G Capital adquiriu a Skechers por um valor inferior ao correto devido a quatro fatores:

    1. Desvalorização momentânea causada por tarifas
      Um impacto conjuntural teria sido usado como justificativa para pagar menos.

    2. Potencial de crescimento futuro ignorado
      Vendas internacionais, alta demanda por produtos confortáveis e expansão em mercados emergentes aumentam o valor da empresa.

    3. Suspeita de favorecimento interno
      Investidores sugerem que o fundador teria recebido condições privilegiadas na negociação.

    4. Avaliações independentes apontariam valores maiores
      Fundos alegam que projeções financeiras indicavam preço superior ao oferecido.

    Sem consenso para acordo preliminar, o conflito seguiu para o tribunal, aumentando a visibilidade da disputa.

    Impactos da disputa para o setor de calçados

    O caso abre debate sobre como fusões e aquisições bilionárias devem ser analisadas em períodos de instabilidade econômica. Para o setor de calçados, a discussão evidencia:

    A disputa também pode influenciar operações futuras envolvendo marcas esportivas, ampliando o rigor regulatório em transações de grande porte.

    O que esperar das próximas etapas do caso Skechers–3G

    No curto prazo, o Tribunal de Chancelaria de Delaware deve analisar:

    Dependendo da decisão, investidores podem ter direito a compensações financeiras ou ajustes no valor final pago. Também é possível que o caso abra precedentes para outras aquisições realizadas durante períodos de volatilidade econômica.

    Compra da Skechers pela 3G Capital vira disputa nos EUA

    Fonte: Gazeta Mercantil – Economia